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sexta-feira, 10 de julho de 2015

A noite do Ópera House em Aracaju pela Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe e grupo Vocal Coda

Em um ano atípico para a música sinfônica em Sergipe, a noite de ontem 09 de julho foi palco de uma espetacular série de trechos de óperas no tablado do Teatro Atheneu e por assim dizer, a propiciação de um evento inédito e grato por sua concepção artística. Lado a lado a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe sobre a regência e direção artística do Maestro Ion Bressan, Coro Sinfônico e grupo vocal Coda oportunizaram ao público sergipano uma noite de grandes surpresas. Desde a evidência do crescimento de uma Orquestra mais sólida e qualitativa, ao repertório plural e a anunciação de vozes fascinantes como a da Soprano Vanice Dias Oliveira¹.

Há quase três anos escrevo neste espaço e uma das reclamações latentes que trago sempre é a da falta de grupos musicais independentes das Orquestras Sinfônicas e sobre tudo, que tragam para nossos palcos uma proposta artística definida, identitárias, que nos faça como expectadores, movermos-no do tédio orquestral sob o qual se concebem os principais grupos em nosso Estado. Esse é sem dúvidas um panorama que aos poucos vem se modificando com a aparição de grupos como Brasileiríssimo, OSCOM  (Orquestra Sergipana de Contrabaixos) ou mesmo o Duo flauta e violão dos músicos João Liberato e Ricardo Vieira. Dentro desta perspectiva, a OSUFS vem se colocando desafiadora e tem proporcionado à cena musical a abertura de espaços diversificados e inventivos. Através do projeto de extensão acadêmica que a abriga dentro do curso de música da UFS, a Orquestra serve de espaço de experimentação e abriga não apenas alunos da licenciatura em música, mas de todos os cursos mediante aprovação em edital de seleção anual para Coro e Orquestra. 

O Ópera House como espaço de experimentação é reflexo desta liberdade artística e se coloca ainda que não se pretenda, como o evento dos mais inventivos e importantes àqueles que buscam entretenimento musical descompromissado do rigor estético das salas de concerto este ano. Não menos musical e ou erudito, o concerto se sustentou sob a base do espetáculo e dialogou de maneira didática com seguimentos variados da sociedade a fim de apresentar a ópera sem todos os estigmas que pesam sobre esse gênero pouco compreendido entre os não praticantes da música clássica. Ópera neste contexto virou sinônimo de atração musical ao ser fragmentada em excertos bem postos frente a necessidade de fazer-nos conhecê-los sem desprezar a grandeza de suas particularidades, vide o constante diálogo entre Orquestra, teatralidade e canto. De todas estas especificidades e ainda os aspectos que continuo a achar tangencial como a irresponsável superlotação de espaços públicos como recorrentemente acontece em Sergipe e ou a desnecessária execução repetida à exaustão da infame Trilha do filme Piratas do Caribe por parte da OSUFS, a noite de ontem terminou por nos brindar um grande espetáculo operístico.   

E essa possibilidade se fez frente a uma vibrante abertura com a Orquestra executando a introdução da ópera O Barão cigano de Johann Strauss (filho) ². Ponto que a mim como expectador pareceu ser dos mais felizes já que neste momento o brilho recaia todo sobre a execução apenas da Orquestra Sinfônica e indica o avanço de um  caminho de construção que vi desde o comecinho quando os ensaios aconteciam ainda numa sala improvisada do CODAP (Colégio de Aplicação da UFS) dirigida e que ainda que reconheça boa parte dos naipes estruturantes da orquestra compostos em sua imensa maioria por músicos já profissionais da própria Orquestra Sinfônica do Estado, o que deslegitimaria numa primeira instancia o teor acadêmico da unidade, é preciso legitimar também a condição discente de muitos destes mesmo músicos e toda a imensurável contribuição que trazem como aporte da experiência da prática musical para o contato com os jovens musicistas. É se solidificam como espelho de uma possibilidade profissional aos que aprendizes que vislumbrem seguir por esta seara. 

Ainda assim, o grande arroubo da noite foram as vozes passeando por cada fileira de gente atenta na sala. E as possibilidades cênicas iam desde La ci darem la mano da ópera Don Giovani de Mozart a excertos das óperas Tosca de Puccini, La traviata de Verdi e preciosidades como o solo do Barítono Roziel Benvindo interpretanto Di Provenza Il Mar da ópera La traviata, conseguindo arrancar extenuantes aplausos frente a força grave de seu canto e de como ainda que sem um figurino que remetesse à cena original em nada parecia não sentir aqueles impulsos como realidade. Uma grande feliz parceria entre a Orquestra e o grupo Coda na aproximação de elementos tão confluentes e particularmente pouco explorados por nossos grupos sinfônicos. Inevitavelmente o Canto tem sido o grande expoente nos últimos anos aqui em nossa terra, vide as Óperas que vimos serem executadas (ainda que sem o caráter de cenário e figurinos) pela ORSSE ou mesmo a presença corriqueira dele em concertos como O Disney a comemoração dos 46 anos de vida da UFS onde pudemos nos deliciar com o singular canto da Soprano Sergipana Naline Menezes em O Mio Bambino Caro de Puccine que neste concerto de ontem fora interpretado pela soprano e também delicada Patricia Sandes. 

Tudo isto para chegarmos ao que gratamente chamarei de brilho maior que me apareceu como presente desde que a vi cantar pela primeira vez a La traviata baixo a batuta do Mastro Ion, e que ontem não precisava ter nome nem forma. Bastava que nos dispuséssemos a fechar os olhos e ainda assim o canto de Vanice Dias Oliveira nos guiaria como vulto até a altura da extensão de seu canto. E aos mais atentos na brevidade de sua aparição em cena, não mais que cinco minutos. O suficiente para arrebatar e parecer nos puxar altiva pela mão e do alto de um monte contemplarmos a aridez de Três homens e um conflito, filme do Sergio Leone para o qual compôs a sua trilha o compositor Ennio Morricone e para o qual deu vida Vanice ontem  ao tomar o canto pelas vísceras  e espremê-lo em beleza. Beleza que desejo que ecoe e se projete com a mesma doçura com a qual me arrepiou e ainda reverbera em mim. 

Assim feito, a brevidade dessas percepções recaem sobre um lugar comum. O de ansiar por mais momentos como este. Por mais parcerias frutíferas como o foi com o Coda e sobre maneira o cuidado em pensar um repertório que não dialogue apenas com o fazer musical, mas sobre tudo com a acessibilidade, a formação de ouvintes e com o entretenimento através da contemplação artística. Neste caminho louvo a perspicácia na qual se sustenta a Orquestra Sinfônica de Sergipe num caminho de se consolidar como o aquele plano de fuga que preenche ao final quando as portas se abrem e enxergamos a luz no final do caminho.



¹ O programa traz os dois sobrenomes de maneiras separadas. Vanice Dias / Vanice Oliveira
² Para desfazer confusões Johann Straus Filho era filho do também compositor Johann Straus. Confira aqui
³ Veja Programa completo aqui.  


terça-feira, 20 de novembro de 2012

De quando é divertido brincar de achar que o público não sabe o que é uma mudança abrupta. Ou da série: Nunca quis tanto ir a um concerto! E de verdade, ainda que digam o contrário, desejo que seja uma noite e tanto. Até convidei um amigo.

Imagino pra mim mesmo que esse hiato que me separou do último post tenha me feito ver as casas reais muito mais próximas à sua real conceptura. Vi diante de mim tantas e tantas posições. Fraquezas, medo, discordância, atrocidades com a arte musical aqui em Sergipe Del Rey. E o mais bonito de toda essa nuance é que ela acontece quase que sorrateira, como um ladrão que se precipita para dentro de nosso jardim e rouba a rosa preferida como se também não antevisse que o dono do jardim, mesmo que tarde, uma hora fosse proteger-se. E pra isso não precisa que haja muros, nem grades e cercas elétricas. Meu silêncio em nada é recuo. Ao contrário. O tempo de silenciar me recompõe para que eu escreva sobre e quando quiser. E não há como não sê-lo.  Hoje por exemplo, o instinto pulsa mais que no inicio deste blog. E descreverei com clareza o que faz deste post tão contraditório e difícil de sair.

A questão que rodeia minha cabeça por tanto tempo é a seguinte: Até que ponto nós sergipanos como público somos tão inocentes em relação aos mandos e desmandos gerenciais que permeiam nossa cultura sem que nos importemos, sem que de fato entendamos que todas as questões, inclusive as relações pessoais nesse sentido, sejam políticas? Isso tudo para que eu responda a mim mesmo que ainda vai levar algumas eternidades para que alguém se disponha a por fim no quesito "brincar de orquestra de nível internacional". Sim, porque se o discurso hierárquico é de que agora temos uma das orquestras mais atuantes do eixo norte e nordeste, vamos começar fazer jus à clarividência. Consigo compreender que a ORSSE tenha dado um salto, e já evidenciei aqui em outro momento. Mas não consigo compreender como ao mesmo tempo em que temos a possibilidade de ir adiante à transformação, insistimos em ficar no meio do caminho. E nisso credito a culpa diretamente a duas pessoas. A primeira, da secretária da cultura (na pessoa da SECULT) que parece fechar os olhos para o que é tão óbvio. Se hoje logramos o status de uma das orquestras mais atuantes do norte e nordeste é porque o compramos em duas perspectivas. A primeira, da veiculação do discurso, que apesar de ser questionável em termos técnicos, é de função nossa vendermos os produtos do estado (ainda que esse, não dialogue em nada com nossas raízes, nossos desejos, nossa identidade), a segunda no sentido de que não é preciso ser muito entendido em termos licitatórios para compreender que pagamos e pagamos muito caro para fingir que somos boa orquestra frente a regentes de renome nacional e internacional (que claro, não dispensariam por pouca bagatela um "convite" nosso). O segundo culpado, e o digo sem medo que me coma o fígado (afinal, só resta um e antes que ele acabe preciso escrever) sem sombra de dúvidas é o maestro Guilherme Mannis. 

Já falei aqui antes e repito com desejo de que soe e ressoe minha indignação frente à falta de respeito com que esse senhor conduz a nossa orquestra. Não é a primeira vez só nessa temporada que eu falo explicitamente da falta de respeito que existe por parte da direção no sentido de mudar um repertório, cancelá-lo ou qualquer coisa nesse sentido. Não existe coisa mais depreciativa que se encher de expectativa diante de um repertório e então dar de cara com um recorte bonito do que fora vinculado antes. Por exemplo:  22 de novembro de 2012... Onde foi parar O Patriota, ET, Pearl Harbour, Superman, Jurassic Park...? Certamente juntaram-se a Petrouscka. 

E por isso explico aqui meu pesar do primeiro parágrafo. Não desgosto menos o repertório que está posto para a quinta-feira dia 22 de novembro de 2012. Vai ser incrível, desejo que o seja, e fico feliz que trilhas como a do filme Jurassic Park esteja efetivamente de fora das execuções. Estou feliz, excitado e tão empolgado a ponto de convidar amigos para que vão ao concerto. É meu dever como mantenedor da orquestra, assim como também é meu dever que eu não me cale só porque o repertório favorece meu ego. Como também é meu dever supor entender que mais uma vez volto à questão de escolha do repertório como um atavio à nossas necessidades. É sobremaneira uma escolha elitista, que só dialoga com uma parcela mínima das pessoas que irão ao teatro. Cadê o espaço para a musica nacional? Onde ficou a sapiência entre mesclar bons repertórios de cinema mundial ao invés de trazer quase que um concerto inteiro alusivo à obra do Johnn Williams? Muito me espanta que nessa noite em que vamos falar de cinema não exista sombra alguma  do mestre Italiano Ennio Morricone e seu fabuloso Cinema Paradiso.

E ainda que o concerto não seja mais em comemoração ao aniversário de 150 anos do Debussy, vamos lá. Bom concerto.

Orquestra Sinfônica de Sergipe - Série Cajueiros IX
22 de novembro de 2012, 20h30
Teatro Tobias Barreto
Ingressos: R$20,00 (inteira), R$10,00 (meia)


"Cine Orquestra - Grandes Trilhas Sonoras do Cinema Mundial"
Daniel NERY e Guilherme MANNIS, regentes
Márcio RODRIGUES, violino

John WILLIAMS
Raiders March - Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida
Super Man March - Super-Homem
Suíte Star Wars
A Lista de Schindler
Suíte Sinfônica de Harry Potter e a Pedra Filosofal

Carlos GARDEL
Por una cabeza - Perfume de Mulher

Howard SHORE (Arr. Bob Cerulli)
Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel

Klaus BADELT (Arr. Ted Ricketts)
Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra  

Fonte: http://www.orquestrasinfonica.se.gov.br/temporada
          http://sinfonicasergipe.blogspot.com.br/