sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Mas porque não falei sobre festivais antes?

Definitivamente é algo que todo acadêmico independente da área de estudo e atuação deveria se oportunizar uma vez na vida. Ir a um encontro de estudantes de seus cursos, e nesse caso, o da música, visitar integralmente um festival de música. Geralmente acontecem no Brasil nos períodos de férias, já que assim fica mais cômodo reunir uma gama de músicos estudantes e profissionais da área musical.

E tão importante quanto a apreciação dos espaços musicais, esses festivais servem como porta de entrada para uma boa socialização de conhecimentos e culturas diversas. Conhecer gente nova, novos idiomas, novas peças musicais, tecnicas ofertadas nos inúmeros Master Classes e oficinas práticas seja em instrumentação, regência ou mesmo metodólogias e aspectos de gerência dos mecanismos de cultura institucional. É um mundo, há uma diversidade de opções para o deslumbramento artístico e os encontros casuais com gente potencialmente dentro do mesmo espirito que o seu. 

Tudo é festa e desde a semana passada deu-se início a mais uma edição do FEMUSC ( Em Jaraguá do Sul- SC). O que me leva a escrever tão tardiamente? Justamente o fato que essa noite vais er executada a 5ª Sinfonia do Gustav Mahler. E ela é tão expressiva, tão dolorosa, tão sutil na bruteza com que se entrelaçam as cordas naquele adagietto que mesmo não estando lá eu desejei ouví-la mais uma vez. Ouví-la ser tocada com a vontade de um bando de músicos de formas tão diversas reunidos por uma única e nobre causa. Viver a música irestrita durante esses dias. 

Ainda há tempo de se deleitar, todo ano novas inscrições, novas perspectivas e não importa o seu nivel técnico. Há espaços que contemplam a todos, desde os iniciantes aos já profissionais. Basta se lançar e aproveitar não só o festival institucional, sobre tudo rodopiar pela cidade, conhecer lugares e pessoas. Sobre tudo as pessoas.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Hoje é natal, deveria falar sobre música natalina ou posso dizer que demorei a escrever sobre a Nona do Beethoven por medo de não conseguir calar o que meus ouvidos escutaram? Embora eu saiba a resposta, prefiro dizer que Ver o Jackson Trindade cantando com o coro da ORSSE foi grandioso.

E vou logo adiantando que não há tanto assim por dizer. E talvez justamente por ter sido um tanto quanto enfadonho pra mim estar lá escutando pela terceira vez a tal 9ª sinfonia do Beethoven em ré menor op. 125. E claro que me importo em lembrar a primeira vez que a escutei justamente de quando se deu a inauguração do Coro sinfônico sob a direção do Pianista sergipano Daniel Freire. Era 2005, era outra ORSSE, ainda engatinhava no sentido de se firmar como orquestra depois de tantos anos de atividades engodísticas. O maestro Ion Bressan então a frente da Sinfônica, deu à orquestra a brilhante oportunidade de executar peças importantes do repertório operístico mundial sem o constrangimento de ter que descartar da seleção obras que objetivamente só poderiam ser tocadas acompanhadas de um coro sinfônico, a exemplo da Nona de Beethoven. Foi grandioso para mim que até então só concebia tal ideia através dos canais fechados e por isso fiz questão de escutá-la novamente em 2009, já sob a direção do mesmo Guilherme Mannis que volta com ela três anos depois.

E apesar de o motivo maior de eu ter ido lá ter sido o depois do concerto, a programação nocturna que saiu pela colatra, engenhosamente o Concerto foi quem salvou meu dia. Endosso que jamais imaginaria que seria positivo ao ponto em que me foi quando saí de casa. E ainda assim me dispus a assistí-lo sem reservas. E ainda assim prometi manter meus ouvidos abertos para o que chagaria até o mezanino. E chegou tão presencial em termos de sonoridade que falar das ressalvas será um tanto quanto pesado.

As cordas, todo o conjunto delas estava bem posto, emoldurado numa sincronia que não é comum nas apresentações últimas da ORSSE. E embora eu deva dizer que gostei sobre maneira da execução dos violinos, de como eles flutuavam bem dinâmicos ( sobre maneira no Scherzo), o que mais me arrebatou e suponho que tenha intimidado a muitos (que sentados ali) sabem bem a real capacidade técnica das cordas mais graves, foi justamente o conjunto de Cellos, Violas e Contra-baixos. Faz tempo e venho elogiando a chefe de NIPE/NAIPE (afinal o que importa mesmo é a semântica das palavras) dos Cellos, Andressa Souto e não só pela capacidade técnica, a desenvoltura com a qual visivelmente consegue amaciar os trechos mais complicados da obra, mas também pela capacidade de chefiar o seu grupo com sabedoria. Vide o fato de ter posto seu pupilo (que atua como estagiário) mas que sem dúvidas tem despontado como uma das grandes promessas dentre alguns anos, ou quiçá já o seja, na última estante fazendo com que o som nos parecesse muito mais cheio do que de costume. Gosto demasiado do grupo de Baixos, eles conseguem ser lineares (no sentido positivo) e me fazer passar algu tempo vidrado na dinâmica de suas arcadas e dos ataques que sempre me parecem mais ferozes que os de qualquer outro grupo. Nesse sentido também louvo os louros ao Jair Maciel que comanda tão sereno os sons mais graves fazendo com que eles sejam vistos. E parabenizo-o também por encabeçar tão brilhantemente a criação da Orquestra sergipana de Contra-Baixos (OSCON) a quem justamente devo um espaço merecido mais a frente neste blog . Já as violas, a quem já elogiei anteriormente mas que últimamente parece ir-se afogando em marasmos (e embora eu não seja tacanho de perceber também as transições pelas quais esse naipe tem pasado), neste concerto parecia existir. Parecia que consegue ir além dos enxertos de toda vez e criar autonomia. Foi de lá que saiu em minha opinião a maior parte da beleza do 4º movimento, o que torna significativo eu tê-los aplaudido com tanta verdade.

Vergonhoso mesmo, e no sentido mais lastimável foi sentir a ausência de madeiras. Foi tão vexatório que finalmente me despi de meu polimento de todas as vezes em que quis falar sobre esse grupo em geral e acabei ponderando meu apreço pessoal por alguns músicos. Hoje não pode ser assim, por que me incomodou deveras e tanto a ponto de me fazer não querer estar lá presenciando-os. A verdade é que todas as madeiras sairam juntas e antecipadamente de férias. E justamente com polimento vou me ater à percepção de que tudo pareceu confuso, embolado e tão sem sem fôlego que o ar que faltou deles por pouco não conseguiu tirar o brilho soberbo das cordas dando vazão ao coro.

E é justamente falando do coro que terminarei. E também para justificar a retrospectiva que fiz no primeiro parágrafo. Fiquei exultante justamente por evidenciar que se por um lado as madeiras resolveram sair de férias, em seu lugar apareceu um coro sinfônico que não conhecia. Faz uns três concertos passados que falo sobre o potencial do coro, que a pesar de sua pequena estrutura de membros, tem evoluido e reverberado mesmo que com a quantidade minima possível para boas apresentações, mas o que eles apresentaram no Beethoven foi magnífico. foi comovente e fortuitamnet prazeroso ficar ali. Foram maiores em tudo, muito maiores até que o único solista que se salvou em termos de expressão na noite de quinta. Juntos, Coro e o Baixo Cláudio Alexandre fizeram da noite um bálsamo. Foi portentoso escutar inclusive a região aguda do coro que sempre me desagrada, e esplendoroso vê-los uníssono e tão bem encorpados como imagino que seja característica importante dessa sinfonia em especial. Prova de que o canto é algo ainda a ser descoberto pela nossa orquestra, o canto que vem de dentro do coro e pode ecoar como agora o faz Cláudio Alexandre. Mas que para serem vistos é preciso que se ponham a prova e apanhem como foi no choros nº 10 do Villa Lobos, mas que se levantem quando mesmo em menor quantidade e desacreditados dos investimentos e incentivos, possam fazer com que o instrumento voz seja a prata da casa num concerto cheio de surpresas agradáveis.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Copiei e colei novamente: ou de quando no final das contas o dever desse enfadado violino de gravatas polidas é divulgar acima de qualquer perspectiva!

Após a série de Concertos Natalinos que evocaram as comemorações de final de ano da cidade de Aracaju e no Museu da Gente Sergipana, a ORSSE encerra com muita ALEGRIA seu ciclo nesta Temporada de Concertos de 2012.

A escolha da peça não poderia ser mais adequada, a Nona Sinfonia de Beethoven e seu espírito libertário, pleno de poesias sobre a vida, os seres humanos e a paz que precisa reinar entre os irmãos.

Sob a regência do Maestro Guilherme Mannis que destaca essa apresentação como "a culminância dos bons resultados do ano de 2012 perante seu público, patrocinador e mantenedores", a ORSSE apresentará seu último concerto do ano, no dia 20 de dezembro de 2012, às 20h30 no Teatro Tobias Barreto, com ingressos ao preço de R$20 e R$10.

Nem todo fim deve ser sinal de pesar e desânimo, ao contrário, em finais de temporadas, as orquestras demonstram o seu melhor, reservam para o seu público um concerto pleno de boas energias para que todos possam vivenciar a música em sua forma pura e radiante.

...Venha transformar o seu mundo, encontrar os amigos e prestigiar a Sua Orquestra!!

Programa:

Teatro Tobias Barreto
20, quinta-feira, 20h30
Ingressos R$20 e R$10

Guilherme Mannis, regente
Verônica Santos, soprano
Vanda Otero, mezzo-soprano
Carlos Eduardo, tenor
Cláudio-Alexandre Silva, baixo

Côro Sinfônico da ORSSE
Daniel Freire, regente

L. van Beethoven
Sinfonia N. 9, em ré menor, op. 25 "Coral"



Fonte: http://sinfonicasergipe.blogspot.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O tempo todo quando falei sobre trilhas sonoras quis falar um pouco sobre o primeiro filme que me veio em tom de melodia.

Não queria começar falando explicitamente sobre “tudo sobre minha mãe”. Talvez nem devesse fazê-lo. Mas não há como. Foi através desse filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar que pude penetrar a fundo o mundo de Alberto Iglesias. O nome nem é conhecido por aqui na terra da Bossa Nova, talvez nem muito conhecido seja por aí a fora, porém sua obra é de grandiosa valia para o mundo cinematográfico e musical. Alberto Iglesias é responsável pela trilha sonora de alguns famosos  filmes espanhóis como “Fale com ela” e “Má educação”, todos de Almodóvar. E tem se colocado a cada novo filme como grandioso entendedor da interdisciplinaridade artística, porque ao compor não o faz como um enxerto. Alberto é dos pouco que conseguem elaborar com firmeza um cenário próprio e independente das imagens postas. Suas melodias são sem dúvida um ataque responsivo aos diálogos entrepostos nas tramas. Casando imagem e música, eles não necessariamente necessitavam aparecer, ou a bem de meu afã por ser justo. Em última instância as melodias de Iglesias e os quadros cinematográficos do Almodóvar coexistem como necessidade de lacerar nossas convicções.

Iglesias vem se consolidando como um grande compositor de trilhas sonoras, e não é a custa de pouco esforço, porém de um notável talento; o compositor espanhol já conta em seu currículo com uma nomeação ao Oscar (prêmio concedido pela Acadêmia de Artes e Ciências Cinematográficas (e embora isso, não acho que seja o ponto mais relevante em sua biografia) ). No ano de 2005, plateias de todo o mundo pararam para escutar a doce trilha sonora do Filme  “O jardineiro fiel” do diretor brasileiro Fernando Meirelles (que havia sido indicado ao Oscar) e percebê-lo se reinventar dentro dos aspectos que o fez conhecido, sobre tudo por ter encabeçado a direção musical dos últimos cinco mais recentes filmes do Almodóvar.  É com a mesma doçura que compôs a trilha do “Jardineiro fiel” que Alberto Iglesias assumiu no ano de 1999 a direção sonora de “Tudo sobre minha mãe”, e é também com a mesma força que ele repete a fórmula com que se inaugurou no cinema ao fazer a trilha do longa metragem chamado “Vaca”, do diretor espanhol Julio Medem, no qual Alberto Iglesias faz uma descrição surreal do bosque, lugar central a partir do qual nasce e morre o enredo e seus personagens. 

Manuela e Esteban
Chamá-lo-ia aqui de Realista, porque é assim que ele se apresenta e faz de sua obra uma marca descritiva e fiel a cada quadro e personagens. Em “Tudo sobre minha mãe” não é diferente, e traz outra característica não tão comum ao agrado dos expectadores: toda a trilha sonora é instrumental, tendo apenas uma única canção cantada, Tajabone. Iglesias é cabal ao buscar no limiar de cada cena a emoção do contexto descrito no filme de maneira a associá-lo ao seu tema, nomeando por vezes as canções de acordo com as cenas; isso acontece com a canção “Não gosto que escreva sobre mim”, originária da cena em que Manuela conversa com o filho, Esteban, às vésperas de seu aniversário e em que ela ao saber do filho que ele escreve tudo sobre ela; diz a ele  não gostar de saber que ele escreve sobre sua vida; assim, o faz também quando Manuela decide ir visitar o receptor do coração de seu filho que havia morrido num acidente de carro no dia de seu aniversário, numa visita literal ao coração e às memórias do filho morto. 

Tal canção é coroada com o título que mais parece um pedido agoniado sob o embalo forte dos violinos: “ Traz o coração de meu filho”. Essa é, talvez, a característica mais viva de um compositor que sabe dosar a comicidade e a dor. E vai além; faz uso de elementos cotidianos na cultura musical de seu povo e as coloca para o filme ora como batida forte da música cigana ora na tristeza e sensualidade absoluta do tango. Alberto Iglesias foi sem dúvida um grande colaborador para que o filme “Tudo sobre minha mãe”, concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano de 1999, fosse consagrado como o favorito do público e dono da estatueta. Com isso, Alberto se consolida não apenas como um grande compositor de trilha sonora, mas como um músico de alma, que vai além do que diz visualmente uma partitura; ele toca-nos, tocando as feridas de cada personagem que se encontra na dor e alegria do expectador.

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domingo, 25 de novembro de 2012

Burrice é não admitir que sabemos bem a fórmula da redenção!

Três dias se passaram e o concerto sobre trilhas sonoras da orquestra sinfônica de Sergipe (ORSSE) ainda repercute. Fico feliz. E respondendo aos montes de questionadores sobre porque de eu não ter escrito nada ainda, ou se ia ou não escrever. Sim, não o ia escrever, e não por algum evento que demandasse maior atenção. Não achava que fosse preciso diante de maior expressividade que o foi naquela noite. Casa cheia (Coisa rara no últimos anos nos concertos da nossa sinfônica), público imensamente animado e execuções inacreditáveis. 

E bem por isso acho que não seja necessário delongas. Essas linhas que seguem nesse post é um abraço efusivo aos músicos que ali estavam presentes. Leves, empenhados e fortuitamente geniais. O concerto foi um tapa certeiro em mim, que confesso (por questão de transferência pessoal) me sentia desestimulado a ir escutá-lo, e nunca, jamais, por não acreditar que fosse ser bom o suficiente. Desejei que o fosse, torci para que assim seguisse e não me arrependo em creditar minha nulidade pífia frente a tamanha felicidade de meus amigos na plateia. E também por isso apenas me aterei a três momentos magníficos e tentarei por apenas um post excluir da minha mente o quão ridículo é cada vez que vejo o senhor Maestro dançando daquela forma um tanto quanto constrangedora.

A lista de Shindler
1. É bem verdade que gosto demasiado do Tango Por una cabeza, é bem verdade que foi uma audição limpa, mas tão sem paixão (e ainda assim lindo, bem conduzido como me fez lembrar um amigo) que prefiro falar da preciosidade que seguiu em contra-partida com A lista de Shindler. Foi imenso, foi fantástico e arrebatador. E sem hiperbolismo algum, um dos poucos momentos que arrancou silêncio das pessoas naquela sala. Silêncio esse que presumo por mim que dialogava diretamente com os labirintos que existem dentro de cada um de nós. Tão macio e tão sofrido que a contemplação deixava um pouco invisível o solista Márcio Rodrigues (Spalla da ORSSE) para que sua alma preenchesse de poesia o mezanino donde me encontrava. Bravo.

O senhor dos anéis
2. Acho que inexoravelmente para todos nós fãs da saga Senhor dos anéis foi emocionante escutar o tema do anel e do Hobbit. O que chegou em termos de música era visivelmente empenhoso. E saboreá-lo foi ir além das estéticas concertísticas e aplaudir em cada fim de movimento (e aqui falo das outras peças em especifico). Imagino que essa ruptura não desagrade, era reflexo positivo da satisfação dos presentes. Coisa essa que também em deixa feliz e novamente reflexivo. Ora, então se tivéssemos um belo concerto como esse, menos enfadonho, mais direto a cada bimestre, não seria de algum modo pedagógico e eficiente no que tange a formação de uma plateia? O que há de popular e pejorativo (aos puros) nessas obras? Ao invés de termos que justificar que sabemos que aquelas pessoas só estavam lá por conta de referido programa e quase implorar para que voltem (que é ingenuamente óbvio que as pessoas se aproximem das salas de concertos primeiro por aquilo que lhes prende a atenção) poderíamos fazer desse momento algo natural. Não exito dizer que os dois melhores momentos do ano em termos de apreensão e participação sincera do público foram justamente os dois concertos que dialogavam com o povo. O concerto do Gonzaga e esse. Isso não é relevante? Aproveito para agradecer a meu amigo Gustavo Garcia Nogueira que atendeu a meu convite e foi ver o concerto trajando sua camisa nerd de personagens de desenho e de quebra usando o Anel do FRODO em seu pescoço. Foi divertido a beça. 

Harry Potter, Ronald Wesley e Hermione Granger
3. Ah, a Suite Harry potter! Como arrancou de mim sentimentos bons. Como nos elevou a picos tão extremos de tensão e euforia. A introdução misteriosa das trompas e o que conseguiu fazer o Daniel freire (Pianista da ORSSE)  e as cordas naqueles cinco primeiros minutos foi de arrancar lágrimas. Aos fiéis leitores de cada um daqueles extensos livros foi uma viagem homérica fundir as imagens, as lembranças de cada uma das passagens quando executadas pela orquestra. Como não lembrar da rua dos Alfeneiros nº 4 né Gustavo? Como não lamentar não ser um londrino e ter podido participar da seleção para o elenco do filme. Definitivamente escutar aquela trilha foi ficar mil vezes abobalhado e não se indispor com isso. Foi fabuloso, foi medonho de tão complexo e heroicamente tocado. Foi como renascer e aspirar bons ventos. Foi genial e por si só já valeria todo o concerto. 

E já que não conseguí não me alongar e aqui estou mesmo, aproveito para fazer duas menções. Fiquei imensamente orgulhoso de escutar com tanta firmeza e entendimento a Harpa da Thais Rabelo. Tão bom sentir que temos boas pratas em casa. Que há muito por lapidar mas que isso mesmo é indicativo que no fim teremos bom diamante. Fiquei exultante. E depois aproveito também para parabenizar o Daniel Nery. Acredite, existe menos de cenicidade e muito mais de abstração sentimental em sua condução. Para mim que sou um leigo entendedor de regências, ficou mais que claro o quanto que a firmeza dos gestos e da precisão rítmica ajudava a tornar tão bem postas as peças. 



terça-feira, 20 de novembro de 2012

De quando é divertido brincar de achar que o público não sabe o que é uma mudança abrupta. Ou da série: Nunca quis tanto ir a um concerto! E de verdade, ainda que digam o contrário, desejo que seja uma noite e tanto. Até convidei um amigo.

Imagino pra mim mesmo que esse hiato que me separou do último post tenha me feito ver as casas reais muito mais próximas à sua real conceptura. Vi diante de mim tantas e tantas posições. Fraquezas, medo, discordância, atrocidades com a arte musical aqui em Sergipe Del Rey. E o mais bonito de toda essa nuance é que ela acontece quase que sorrateira, como um ladrão que se precipita para dentro de nosso jardim e rouba a rosa preferida como se também não antevisse que o dono do jardim, mesmo que tarde, uma hora fosse proteger-se. E pra isso não precisa que haja muros, nem grades e cercas elétricas. Meu silêncio em nada é recuo. Ao contrário. O tempo de silenciar me recompõe para que eu escreva sobre e quando quiser. E não há como não sê-lo.  Hoje por exemplo, o instinto pulsa mais que no inicio deste blog. E descreverei com clareza o que faz deste post tão contraditório e difícil de sair.

A questão que rodeia minha cabeça por tanto tempo é a seguinte: Até que ponto nós sergipanos como público somos tão inocentes em relação aos mandos e desmandos gerenciais que permeiam nossa cultura sem que nos importemos, sem que de fato entendamos que todas as questões, inclusive as relações pessoais nesse sentido, sejam políticas? Isso tudo para que eu responda a mim mesmo que ainda vai levar algumas eternidades para que alguém se disponha a por fim no quesito "brincar de orquestra de nível internacional". Sim, porque se o discurso hierárquico é de que agora temos uma das orquestras mais atuantes do eixo norte e nordeste, vamos começar fazer jus à clarividência. Consigo compreender que a ORSSE tenha dado um salto, e já evidenciei aqui em outro momento. Mas não consigo compreender como ao mesmo tempo em que temos a possibilidade de ir adiante à transformação, insistimos em ficar no meio do caminho. E nisso credito a culpa diretamente a duas pessoas. A primeira, da secretária da cultura (na pessoa da SECULT) que parece fechar os olhos para o que é tão óbvio. Se hoje logramos o status de uma das orquestras mais atuantes do norte e nordeste é porque o compramos em duas perspectivas. A primeira, da veiculação do discurso, que apesar de ser questionável em termos técnicos, é de função nossa vendermos os produtos do estado (ainda que esse, não dialogue em nada com nossas raízes, nossos desejos, nossa identidade), a segunda no sentido de que não é preciso ser muito entendido em termos licitatórios para compreender que pagamos e pagamos muito caro para fingir que somos boa orquestra frente a regentes de renome nacional e internacional (que claro, não dispensariam por pouca bagatela um "convite" nosso). O segundo culpado, e o digo sem medo que me coma o fígado (afinal, só resta um e antes que ele acabe preciso escrever) sem sombra de dúvidas é o maestro Guilherme Mannis. 

Já falei aqui antes e repito com desejo de que soe e ressoe minha indignação frente à falta de respeito com que esse senhor conduz a nossa orquestra. Não é a primeira vez só nessa temporada que eu falo explicitamente da falta de respeito que existe por parte da direção no sentido de mudar um repertório, cancelá-lo ou qualquer coisa nesse sentido. Não existe coisa mais depreciativa que se encher de expectativa diante de um repertório e então dar de cara com um recorte bonito do que fora vinculado antes. Por exemplo:  22 de novembro de 2012... Onde foi parar O Patriota, ET, Pearl Harbour, Superman, Jurassic Park...? Certamente juntaram-se a Petrouscka. 

E por isso explico aqui meu pesar do primeiro parágrafo. Não desgosto menos o repertório que está posto para a quinta-feira dia 22 de novembro de 2012. Vai ser incrível, desejo que o seja, e fico feliz que trilhas como a do filme Jurassic Park esteja efetivamente de fora das execuções. Estou feliz, excitado e tão empolgado a ponto de convidar amigos para que vão ao concerto. É meu dever como mantenedor da orquestra, assim como também é meu dever que eu não me cale só porque o repertório favorece meu ego. Como também é meu dever supor entender que mais uma vez volto à questão de escolha do repertório como um atavio à nossas necessidades. É sobremaneira uma escolha elitista, que só dialoga com uma parcela mínima das pessoas que irão ao teatro. Cadê o espaço para a musica nacional? Onde ficou a sapiência entre mesclar bons repertórios de cinema mundial ao invés de trazer quase que um concerto inteiro alusivo à obra do Johnn Williams? Muito me espanta que nessa noite em que vamos falar de cinema não exista sombra alguma  do mestre Italiano Ennio Morricone e seu fabuloso Cinema Paradiso.

E ainda que o concerto não seja mais em comemoração ao aniversário de 150 anos do Debussy, vamos lá. Bom concerto.

Orquestra Sinfônica de Sergipe - Série Cajueiros IX
22 de novembro de 2012, 20h30
Teatro Tobias Barreto
Ingressos: R$20,00 (inteira), R$10,00 (meia)


"Cine Orquestra - Grandes Trilhas Sonoras do Cinema Mundial"
Daniel NERY e Guilherme MANNIS, regentes
Márcio RODRIGUES, violino

John WILLIAMS
Raiders March - Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida
Super Man March - Super-Homem
Suíte Star Wars
A Lista de Schindler
Suíte Sinfônica de Harry Potter e a Pedra Filosofal

Carlos GARDEL
Por una cabeza - Perfume de Mulher

Howard SHORE (Arr. Bob Cerulli)
Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel

Klaus BADELT (Arr. Ted Ricketts)
Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra  

Fonte: http://www.orquestrasinfonica.se.gov.br/temporada
          http://sinfonicasergipe.blogspot.com.br/

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De quando um menino maluquinho compõe trilha para cinema como gente grande!

Antônio Pinto
Faz tempo queria falar sobre trilha sonora. A bem da verdade se existe fagulha em mim de desejo de ir além com a música é dentro dessa perspectiva. Acho que fui tragado nesse meu afã cinéfilo muito antes pela música que pela composição dos enquadramentos e da decoupage dos filmes. Lembro quando na classe de 2008 de cinema (Patrocinadas pelo Minc (Ministério da cultura) e pela rede Olhar Brasil) da qual fui um dos anualmente 25 selecionados e numa das disciplinas discutíamos os efeitos da trilha sonora como composição de narrativa e espaço de subjetividades. Tópico esse que me excitava deveras, mas que a um colega de classe era explicitamente entorpecente. Recobro a lembrança de ele me explicar que achava em geral que a música acabava na maioria das vezes tendenciando a narrativa das imagens e que dramatizava sobre maneira o que poderia ser contado em silêncio e teria efeito mais profundo. Me recomendou inclusive um artigo do professor Ismail Xavier ( Professor da ECA-Escola de comunicação e Artes de São Paulo  ) que relutei a ler de inicio já que antevia alguma crítica no sentido de anular minhas perspectivas cinematográficas diante da construção do que eu cria, mas que depois degustei sem sobressaltos uma de suas obras mais completas sobre cinema:  O Discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. E foi um tapa, ou a bem da verdade o recomeço para que eu visse também outro caminho e redescobrisse o cinema mudo. 

E deveria me alongar aqui falando sobre a experiência de estudar de maneira analítica as composições para cinema, ou de como elas tem efeito substancial sobre a construção de uma narrativa. De como esse campo que no Brasil ainda engatinha tem grande espaço e grandes colaboradores desconhecidos da grande mídia. Mas o que me toma a escrever nesse espaço, hoje, é algo mais simples e substancial. A lembrança doce de como ainda criança no ano de 1998 conheci o que  desconhecia como trilha, mas que me usurpou o sentido de estar frente a televisão combinando imagem e som, e já aos poucos entendendo quando a música contava mais que a imagem em si. Foi ai que conheci também o Antônio Pinto, mas que só o fui revisitar com madurez mais tarde. Ao assistir o filme brasileiro Central do Brasil, dirigido pelo também brasileiro Walter Salles, me senti anestesiado pela seleção das canções e de quando a composição erudita atravancava as cenas dando a elas um peso cênico que eu jamais imaginava que se pudesse com tanta beleza.

"A parceria entre o cineasta e o compositor começou em 1995, quando Antonio criou a música para o curta-metragem Socorro Nobre e para o longa Terra estrangeira, codirigido por Daniela Thomas, irmã de Antonio. Em 1998, compôs, ao lado de Jacques Morelenbaum, os temas de Central do Brasil, filme que correu o mundo e teve duas indicações ao Oscar. Filho do cartunista Ziraldo, Antônio também é o compositor da trilha de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, em parceria com Ed Cortês. Em 2004, deu início aos trabalhos internacionais: a trilha adicional do longa-metragem americano Colateral, de Michael Mann, protagonizado por Tom Cruise, e a trilha de Crônicas, de Sebastián Cordero, uma coprodução entre México e Equador. Foi indicado ao Globo de Ouro pela música original Despedida, composição sua, com letra e interpretação de Shakira, para o filme O amor nos tempos do cólera (Love in the Time of Cholera) (2007), de Mike Newell. Sócio-diretor da produtora Supersônica, é um dos poucos músicos brasileiros efetivamente especializados em trilhas sonoras para cinema."



É incrível o poder descritivo de suas trilhas e por isso o igualo ao meu favorito compositor para cinema, o espanhol Alberto Iglesias, que tanto colabora com os filmes do também espanhol e cineasta Pedro Almodóvar. Ao criar uma peça, ele recria a leveza de contar a história e por isso não consigo arrancar de minhas referência a passagem do filme Central do Brasil em que a personagem Dora, interpretada pela atriz Fernanda Montenegro, decide ir embora e que o Antonio Pinto escreve uma apoteose para pintar essa despedida. Sozinha e em silêncio Dora se despede de um pedaço de sua vida, algo que conquistou no susto e imprevisivelmente fez morada em sua pele, e não menos avassalador é sentir que essa despedida só tem  sentido se colocada frente à canção escrita por Antonio e que se chama A carta. A depressão dolorida da certeza da finitude marcada pela melodia e harmonia dos violinos, o choro contido no soluço da colaboração na trilha do violoncelista Jaques Morelembaum e o conjunto de qualidades dentro da simplicidade com que vejo ter sido escrita, quase que de forma experimental essa trilha me faz desejar que mais pessoas possam ter acesso a sua obra. 


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