quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Acreditei no Caetano quando disse que todos os homens do mundo voltaram seus naquela direção!

E se de repente você redescobre lamentavelmente que os de fora têm maior fascínio pela promoção de nossas belezas musicais? Não uma, ou duas, ou mil vezes, mas infindas vezes você encontrará belezas musicais nossas executadas e ou visitadas (com fascínio e entusiasmo) por grupos sinfônicos internacionais, se isto é um recado latente sobre apropriação cultural, bem, não sei dizer, não tive tempo de definir a sensação pois o ritmo do vídeo que disponibilizarei abaixo, não me deixa em paz. Repito-o muitas vezes até diferenciar os entretons nas cores deste arranjo envolvente.

Disse "envolvente" no sentido de reparar o uso frequente da palavra "Maroto" (Já que fui advertido por um leitor frequente deste espaço, de que o uso do termo soava displicente demasiado com a identidade do blog. Meus dedos congelaram alguns segundos antes de mandá-lo ir às favas por razões bem óbvias, mas como as vacas andam mais magras do que o normal e este blog  sequer ostenta muitos leitores, preferi a linha Alice com ele, na esperança de que o vídeo que compartilho agora seja mais producente do que a resposta anexa. Aliás, que tal escolher uma das três opções abaixo para comentar a beleza desse Arranjo da música Mais que nada, do Jorge Ben Joe e Sérgio Mendes (aquele mesmo, quase vencedor do Oscar de melhor Trilha pelo animação Rio) e  interpretada pelos 12 cellistas da Filarmônica de Berlim.

1. Primeiramente Fora Temer  (     )

2. Envolvente (     )

3. Maroto  (      )



PS. Dica do dia: O título desta publicação e uma das tags poderá levar-te a escutar uma das canções mais lindas do Cd Livros.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

“Essa é uma questão no mundo sinfônico: Mudar o formato, sem deixar nossas raízes, mas se aproximar desse público de hoje. Ficou mais simples se comunicar e a música sinfônica tem que alcançar essa velocidade.”

Não, não morremos! E meses de ócio, de férias da pasmaceira musical que assolou as bandas de cá esses últimos dois anos, fizeram-me ainda mais temeroso do que pode vir por aí. Como num movimento preguiçoso e covarde, tem muito grupo musical, muito músico achando que tá fácil a selva e não tem dado a cara a tapa. Quase nada novo tem acontecido de positivo (vide este blog que  segue indo do nada ao nada).

Por isso, enquanto espero pela temporada 2016 em qualquer canto de intermédio, vasculho uma ou outra notícia marota. Assim que aproveito para compartilhar esta daqui sobre a OPES (Orquestra Petrobrás Sinfônica) usar um repertório pop, neste caso, através da musicalidade instigante e perpétua do (ex-tinto) e ainda fresco grupo Los Hermanos para promover as possibilidades sinfônicas. Numa entrevista ao Thiago Dias do portal UOL em São Paulo, o maestro Felipe Prazeres, Regente do projeto e assistente na Petrobrás Sinfônica, explicita de maneira clara o poder de um repertório popular para desconstruir barreiras e formar a renovação de um público jovem e atento a outras formas de linguagem, caso da releitura que fazem do terceiro álbum dos Los Hemanos, o Ventura.

Vale a pena a leitura, mas não empolgue-se tanto amiguinho, ainda estamos falando de um produto caro e pouco acessível, a menos que você esteja aí do lado certo do país. E a quem não, nem puder estar, basta torcer que esse concerto viaje por muitos estados como foi com a Ouro Preto e seu concerto com o repertório Beatles (que na oportunidade fora patrocinada pela BR).


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Serviço:
Ventura Sinfônico
Rio de Janeiro
Data: 11 de fevereiro de 2017 (sábado)
Horário: 22h
Local: Fundição Progresso - Rua dos Arcos 24 - Lapa
Preços: R$ 80 (meia) e $160 (inteira)
Telefone: (21) 3212-0800
Apresentação seguida por show do Bloco pra Iaiá, dedicado ao Los Hermanos

Porto Alegre
Data: 16 de fevereiro de 2017 (quinta-feira)
Horário: 20h
Local: Auditório Araújo Vianna - Av. Osvaldo Aranha 685
Preços: R$ 80 (meia) e R$ 160 (inteira)
Telefone: (51) 4003-1212

São Paulo
Data: 17 e 18 de fevereiro de 2017 (sexta-feira e sábado)
Horário: 21h
Local: Teatro Bradesco - Bourbon Shopping - Rua Palestra Itália 500, 3° piso
Preço: R$ 100 (meia) e R$ 200 (inteira)
Telefone: (11) 3670-4100
Capacidade: 1439 pessoas
Classificação: livre

terça-feira, 29 de março de 2016

Delação premiada serve também ao mundo musical.Ou de quando Há muita coisa acontecendo do lado de lá do Brasil que as vezes nem nos damosconta pelo acaso da geografia.

José Luiz Herencia, ex-diretor geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, que está sendo investigado por desvios que podem ter causado prejuízos de mais de R$ 18 milhões aos cofres públicos municipais, confessou os crimes e fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público Estadual (o acordo ainda não foi homologado pela justiça). A informação foi divulgada na última quinta-feira, dia 17 de março, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Conforme a reportagem, em sua delação Herencia envolveu no esquema fraudulento o diretor executivo do IBGC (organização social que dá suporte à gestão da casa) William Nacked e o diretor artístico John Neschling. O Secretário de Comunicação da Prefeitura Nunzio Briguglio Filho também foi citado. Herencia teria confessado ter recebido R$ 6 milhões, William Nacked teria recebido outros R$ 6 milhões, e o maestro Neschling depositaria a parte dele em contas no exterior por meio do produtor Valentin Proczynski, diretor da agência Old and New Montecarlo. Já o secretário Nunzio Briguglio Filho teria se empenhado pessoalmente para que fosse firmado o contrato do projeto Alma Brasileira. O acordo de delação prevê que Herenica devolva os seus R$ 6 milhões desviados.(Leia a reportagem completa de O Estado de São Paulo aqui.)

O projeto Alma Brasileira foi lançado, em Brasília, em agosto do ano passado, pelo ministro Juca Ferreira e pelos diretores Herência e Neschling, e previa também a participação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e de teatros da Bahia e de Minas Gerais. Alma Brasileira seria um grande projeto multimídia realizado pelo grupo catalão La Fura dels Baus em torno do compositor Heitor Villa-Lobos. A realização, que teria um custo de R$ 5 milhões, seria integralmente bancada pelo Ministério da Cultura (leia mais sobre o Alma Brasileira aqui). Já em dezembro passado, na coletiva de imprensa para apresentação da temporada 2016 do Theatro Municipal, John Neschling, questionado, havia comunicado o cancelamento do projeto.
Na sexta-feira passada, dia 18 de março, o ministro Juca Ferreira divulgou nota sobre os superfaturamentos do Theatro Municipal e sobre o projeto Alma Brasileira, em que sustenta que não foi feito nenhum aporte ao projeto uma vez que “os realizadores se negaram a detalhar gastos no valor de R$ 3.299.980,00 que estavam alocados para pagamento da empresa Old and New Montecarlo”. Por sua vez, o Secretário Nunzio Briguglio Filho afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que não teve nenhuma participação na decisão de contratar ou realizar o espetáculo.

No último, dia 19 de março, o maestro John Neschling publicou um post em sua página do Facebook, refutando as acusações. “É curioso que se dê ouvidos a um ladrão confesso que tenta, para seu próprio benefício acusar maldosamente quem nunca participou de suas falcatruas. Certamente é sua forma de se vingar, uma vez que fui eu quem procurou o prefeito da cidade para alertá-lo da necessidade de uma investigação, quando suspeitei de que as coisas não estavam corretas na administração da Fundação e do IBGC, entidade privada que a administra”, escreve o diretor artístico (leia a íntegra do post abaixo).
Por conta das investigações, em 26 de fevereiro passado o prefeito Fernando Haddad determinou uma intervenção no IBGC, que desde então está sendo conduzido por Paulo Dallari, atual diretor geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

Leia na íntegra a matéria da Revista Concerto aqui.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Salve o regresso do importante blog Violinos de Salto!

Poucas coisas dão felicidade a um blogueiro ou mesmo àquelas pessoas aficionadas por notícias mais leves e com sentido prático sobre o meio musical do que a notícia feliz de um retorno propulsor de compartilhamentos daquele velho blog que você sempre e sempre acessa na esperança de uma atualização marota. Faz tempo acompanho os passos do blog Violinos de salto e dele pude sempre extrair bons conselhos e indicações incríveis. E foi justo nele que aprendi a leveza da pluralidade do fazer musical.

Depois de um hiato e meio que de fininho ele voltou por estas semanas com atualizações bem recorrentes e muito acalantadoras nestes tempos de névoas que parecem infindas do lado de cá. Indico uma passagem tranquila por lá, sem tempo determinado ou pressa. Há muita vida e vitalidade nos posts que vão te apresentar desde importantes indicações de Master classes, concertos, dicas de compras para utensílios musicais, ajudas oportunas sobre técnicas de estudo e aquisição de uma identidade musical desde o erudito ao popular.

A seguir trecho de um dos recentes post :

No que investir?

"Muita gente me pergunta em que materiais investir quando adquirimos o primeiro violino. Eu sempre penso que quem está começando não deve gastar rios de dinheiro de uma vez em coisas extremamente caras. Ah! Noemi, eu tenho que comprar coisas de baixa qualidade? Na verdade, sim. Primeiro que você não vai sentir diferença, além disso nem sabe se vai continuar estudando violino a vida toda. Em pouco tempo, caso você se dedique, você vai sentir necessidade de comprar uma corda melhor, depois pode querer mudar o arco e assim sucessivamente. Por isso não saia por aí gastando. Converse com seu professor, com amigos, leia muito e espere. A experiência vai te ajudar nas mudanças.
Para quem está começando:
  • Violino legal – Antes de comprar é bom pedir uma avaliação de seu professor. Já vi muitas pessoas que gastaram milhares em violinos que não valiam nem centenas. Fique esperto.
  • Encordoamento – Não compre cordas de ponta. Não vejo sentido em gastar 300 reais em cordas que serão usadas em um violino de 150. Você não sentirá a diferença e isso porque realmente não terá diferença. Compre cordas baratas mesmo, com o tempo você sentirá necessidade de trocar.
  • Espaleira – Tem gente que não usa. Mas a maioria dos alunos e professores que eu conheço usa.  Fale com seu professor e pergunte se ele pretende usar nas suas aulas.
A matéria completa e tantos outras preciosidades podem ser acessadas diretamente da página na web que indico aqui. Deleitem-se, e não esqueçam: Deixar um coments lá e cá é tão singelo quanto importante aos que escrevemos e partilhamos nosso tempo com vocês!


domingo, 20 de março de 2016

#Ouve aquela canção que não toca no rádio!

Há presentes de aniversário que chegam num pen drive e fazem festa em sua vida reverberando um bom som por muitas e longas noites. Com a música que apresentarei abaixo foi assim: esperei uma vida desde que assisti o filme Piaf, na busca por encontrar o trecho que encerrava o filme quando apareciam os créditos. Não o encontrava em canto algum e nem mesmo o santo Youtobe me salvava, até que no meu aniversário descobri o trabalho hercúleo que teve o meu amigo Társis Santos de baixar o filme e editá-lo a fim de extrair apenas aquele trecho para me presentear. Fato que por si só salvou uma alma.

Essa semana descobri que para alegria geral de todos e com o fim de salvar também outras almas, o mesmo amigo Társis, resolveu postá-la em seu canal, dando vazão a função do título deste post, que estava um tanto quanto abandonado. Assim que tomo esta felicidade como forma de iniciar mais uma tentativa de levar este blog adiante no ano de 2016:


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

"Ah! Criatura! Quem Poderia pensar que Orfeu: Orfeu Cujo violão é a vida da cidade e cuja fala, como o vento à flor despetala as mulheres - que ele, Orfeu, ficasse assim rendido aos teus encantos!" Ou de quando o melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui...

Remoí toda a noite o fato de ser tão mais fácil despejar num artigo milhares de sensações negativas sobre algo. A inquietude que se abateu sobre minha debilidade em escrever uma linha que fosse fez-me mais feliz porque me dava tempo de assimilar tanta beleza acumulada e escondida. E é tão mais feliz o entretom desta manhã quando me convenço em explicitar que estive errado muitas vezes em não admirar a Orquestra Sinfônica de Sergipe com olhos de primeira vez.

De sorte, me contou o Quintana que essas coisas que parecem não terem beleza nenhuma são simplesmente porque não houve nunca quem lhes desse ao menos um segundo olhar. E ao fazê-lo ontem, como exercício de resignação, flutuei nas notas de um concerto magnífico. Letárgico, no melhor sentido que possa existir nesta sensação de abandonar o corpo para que se atenue os melhores sentimentos. 

Minhas expectativas em escutar o Adagietto da 5ª Sinfonia do Mahler despencaram ao não conseguir chegar em tempo. Era justo o motivo que me levava a acreditar que valeria a pena sair de casa depois de tantos concertos que me pareceram nulos neste ano de 2015... mas, ainda restava o tempo para que chegasse o Intermezzo da Ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni e imaginei que me satisfaria em ouvi-la por desconhecer as duas outras obras, e confessar preguiça em por primeira vez não ter o impulso de pesquisá-las antes de ver o Concerto. 
Orquestra Sinfônica de Sergipe

Tudo que havia de esperança de uma noite terna se potencializou, sobre tudo quando, pude vislumbrar o que tanto imaginei ser o correto em termos de formação de público. E esta mescla entre peças tão conhecidas por serem temas recorrentes em outras representações artísticas, como o Adagietto do Mahler, marcadamente identitário como síntese de "Morte em Veneza" junto a obras quase desconhecidas de nosso público como o Concerto em Mi menor para flauta do Franz Benda, usurpou qualquer possibilidade de contradição e negativismos na construção de um programa que não apenas deve ser exaltado, como também reverenciado com uma segunda, terceira ou infindas noites de repetições frente a tantas obras que se repetem ano após anos sem um sentido de beleza maior.

Todas as vezes em que desgostei de um programa ou uma execução da nossa ORSSE, ontem se desfizeram por quase um segundo, e desejei que não acabasse nunca de tocar-me como o foi. Porque no palco não consegui identificar nenhuma daquelas mazelas que sempre reclamei ser impulso para não voltar a vê-los, mas ao contrário, a animosidade, a doçura e a delicadeza à exaustão eram como uma coisa só: flor de cristal brotando em meio aos lírios. A força de um conjunto que encheu de som o pequeno Teatro Atheneu Sergipense e não havia distinção entre os naipes (para além da mecânica pragmática) fazendo-nos vibrar não com um ou outro grupo específico, mas com todo o conjunto, que ontem do início ao fim tinham ares sutis. E quanto orgulho sentiriam ao presenciá-los tantos que por aqui passaram, quão envaidecidos ficariam sabendo da unidade daquelas cordas, que emanava dos violinos e se espalhava por todo o palco como contagio que impregna a alma de coisas boas.

E que profundeza havia no abismo de escutá-los atento. De ansiar os próximo ataques e orvalhar os olhos quando irromperam explosivamente audíveis os contra-baixos em minhas têmporas exaltadas e depois toda esta euforia esvair-se como de sopro na nuances dos cellos naquela Simple Symphony do Benjamin Britten. Nos Pizzicatos que prenderam o riso num movimento terno de contrair e relaxar o fôlego. Ah! Os Pizzicatos! Quantos sopros de sobrevida. Ah! As violas... Por fim, ouvia-se em coro. Por fim ouviu-se também solo e foi como desfazer todas as sombras que se lhes acometera por tanto tempo. Não havia porque desgostar ou exitar em apenas sentir partir delas um eco. E como não dizer nada em absoluto do tintilar daquela harpa que deslizava sorrateira até fazer-se gosta de chuva batendo na janela, ou a esperteza dos violinos, a quem detive longos minutos a encará-los em sua singeleza e não me contive em arrepios de quando em quando? 

A entrega, a dança, e tudo que no silêncio se dobra traduzia-se na figura segura e tão flutuante do Maestro Daniel Nery, a quem tantos agradecimentos eu direciono por trazer a mim tantas indicações novas de programas únicos e especiais, das perspectivas de lisura em sua regência, que colocam a música como acesso a todos e tudo que se possa ansiar ser através da música. Tudo isto que foi mais que evidente na condução de uma das mais súbitas e arrebatadoras execuções do Intermezzo da Cavalleria Rusticana. Nenhuma gosta daquela serenidade, daquela dinâmica incrível de ser silêncio e depois crescer como o quem canta as venturas de um amor fugaz, não seria possível se n]ão houvesse para além d conhecimento, um sentido de interpretação que apenas nasce para poucos de sensibilidade aguçada.  A fim de não cometer nenhum equívoco de memória, acho que o único deslize imperdoável é a não menção ao Flautista Silvio Jackel Neto no programa da noite. Uma falta que me coloca diante de uma posição de não poder saber nada além de que assim como cantou o  Pessoa, já em apenas ouvir tuas notas de ária alada e cheias de vida, sofro a saudade dela e o quando cessar. 

Programa:

DANIEL NERY, regente
SILVIO JACKEL NETO, Flauta
Gustav MAHLER
Adagietto da Sinfonia n.5
Franz BENDA
Concerto para flauta em mi menor
Pietro MASCAGNI
Intermezzo Sinfônico da ópera Cavalaria Rusticana
Benjamin BRITTEN
Simple Symphony





sexta-feira, 10 de julho de 2015

A noite do Ópera House em Aracaju pela Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe e grupo Vocal Coda

Em um ano atípico para a música sinfônica em Sergipe, a noite de ontem 09 de julho foi palco de uma espetacular série de trechos de óperas no tablado do Teatro Atheneu e por assim dizer, a propiciação de um evento inédito e grato por sua concepção artística. Lado a lado a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe sobre a regência e direção artística do Maestro Ion Bressan, Coro Sinfônico e grupo vocal Coda oportunizaram ao público sergipano uma noite de grandes surpresas. Desde a evidência do crescimento de uma Orquestra mais sólida e qualitativa, ao repertório plural e a anunciação de vozes fascinantes como a da Soprano Vanice Dias Oliveira¹.

Há quase três anos escrevo neste espaço e uma das reclamações latentes que trago sempre é a da falta de grupos musicais independentes das Orquestras Sinfônicas e sobre tudo, que tragam para nossos palcos uma proposta artística definida, identitárias, que nos faça como expectadores, movermos-no do tédio orquestral sob o qual se concebem os principais grupos em nosso Estado. Esse é sem dúvidas um panorama que aos poucos vem se modificando com a aparição de grupos como Brasileiríssimo, OSCOM  (Orquestra Sergipana de Contrabaixos) ou mesmo o Duo flauta e violão dos músicos João Liberato e Ricardo Vieira. Dentro desta perspectiva, a OSUFS vem se colocando desafiadora e tem proporcionado à cena musical a abertura de espaços diversificados e inventivos. Através do projeto de extensão acadêmica que a abriga dentro do curso de música da UFS, a Orquestra serve de espaço de experimentação e abriga não apenas alunos da licenciatura em música, mas de todos os cursos mediante aprovação em edital de seleção anual para Coro e Orquestra. 

O Ópera House como espaço de experimentação é reflexo desta liberdade artística e se coloca ainda que não se pretenda, como o evento dos mais inventivos e importantes àqueles que buscam entretenimento musical descompromissado do rigor estético das salas de concerto este ano. Não menos musical e ou erudito, o concerto se sustentou sob a base do espetáculo e dialogou de maneira didática com seguimentos variados da sociedade a fim de apresentar a ópera sem todos os estigmas que pesam sobre esse gênero pouco compreendido entre os não praticantes da música clássica. Ópera neste contexto virou sinônimo de atração musical ao ser fragmentada em excertos bem postos frente a necessidade de fazer-nos conhecê-los sem desprezar a grandeza de suas particularidades, vide o constante diálogo entre Orquestra, teatralidade e canto. De todas estas especificidades e ainda os aspectos que continuo a achar tangencial como a irresponsável superlotação de espaços públicos como recorrentemente acontece em Sergipe e ou a desnecessária execução repetida à exaustão da infame Trilha do filme Piratas do Caribe por parte da OSUFS, a noite de ontem terminou por nos brindar um grande espetáculo operístico.   

E essa possibilidade se fez frente a uma vibrante abertura com a Orquestra executando a introdução da ópera O Barão cigano de Johann Strauss (filho) ². Ponto que a mim como expectador pareceu ser dos mais felizes já que neste momento o brilho recaia todo sobre a execução apenas da Orquestra Sinfônica e indica o avanço de um  caminho de construção que vi desde o comecinho quando os ensaios aconteciam ainda numa sala improvisada do CODAP (Colégio de Aplicação da UFS) dirigida e que ainda que reconheça boa parte dos naipes estruturantes da orquestra compostos em sua imensa maioria por músicos já profissionais da própria Orquestra Sinfônica do Estado, o que deslegitimaria numa primeira instancia o teor acadêmico da unidade, é preciso legitimar também a condição discente de muitos destes mesmo músicos e toda a imensurável contribuição que trazem como aporte da experiência da prática musical para o contato com os jovens musicistas. É se solidificam como espelho de uma possibilidade profissional aos que aprendizes que vislumbrem seguir por esta seara. 

Ainda assim, o grande arroubo da noite foram as vozes passeando por cada fileira de gente atenta na sala. E as possibilidades cênicas iam desde La ci darem la mano da ópera Don Giovani de Mozart a excertos das óperas Tosca de Puccini, La traviata de Verdi e preciosidades como o solo do Barítono Roziel Benvindo interpretanto Di Provenza Il Mar da ópera La traviata, conseguindo arrancar extenuantes aplausos frente a força grave de seu canto e de como ainda que sem um figurino que remetesse à cena original em nada parecia não sentir aqueles impulsos como realidade. Uma grande feliz parceria entre a Orquestra e o grupo Coda na aproximação de elementos tão confluentes e particularmente pouco explorados por nossos grupos sinfônicos. Inevitavelmente o Canto tem sido o grande expoente nos últimos anos aqui em nossa terra, vide as Óperas que vimos serem executadas (ainda que sem o caráter de cenário e figurinos) pela ORSSE ou mesmo a presença corriqueira dele em concertos como O Disney a comemoração dos 46 anos de vida da UFS onde pudemos nos deliciar com o singular canto da Soprano Sergipana Naline Menezes em O Mio Bambino Caro de Puccine que neste concerto de ontem fora interpretado pela soprano e também delicada Patricia Sandes. 

Tudo isto para chegarmos ao que gratamente chamarei de brilho maior que me apareceu como presente desde que a vi cantar pela primeira vez a La traviata baixo a batuta do Mastro Ion, e que ontem não precisava ter nome nem forma. Bastava que nos dispuséssemos a fechar os olhos e ainda assim o canto de Vanice Dias Oliveira nos guiaria como vulto até a altura da extensão de seu canto. E aos mais atentos na brevidade de sua aparição em cena, não mais que cinco minutos. O suficiente para arrebatar e parecer nos puxar altiva pela mão e do alto de um monte contemplarmos a aridez de Três homens e um conflito, filme do Sergio Leone para o qual compôs a sua trilha o compositor Ennio Morricone e para o qual deu vida Vanice ontem  ao tomar o canto pelas vísceras  e espremê-lo em beleza. Beleza que desejo que ecoe e se projete com a mesma doçura com a qual me arrepiou e ainda reverbera em mim. 

Assim feito, a brevidade dessas percepções recaem sobre um lugar comum. O de ansiar por mais momentos como este. Por mais parcerias frutíferas como o foi com o Coda e sobre maneira o cuidado em pensar um repertório que não dialogue apenas com o fazer musical, mas sobre tudo com a acessibilidade, a formação de ouvintes e com o entretenimento através da contemplação artística. Neste caminho louvo a perspicácia na qual se sustenta a Orquestra Sinfônica de Sergipe num caminho de se consolidar como o aquele plano de fuga que preenche ao final quando as portas se abrem e enxergamos a luz no final do caminho.



¹ O programa traz os dois sobrenomes de maneiras separadas. Vanice Dias / Vanice Oliveira
² Para desfazer confusões Johann Straus Filho era filho do também compositor Johann Straus. Confira aqui
³ Veja Programa completo aqui.